quinta-feira, 7 de junho de 2007

FORMAR PARA APRENDER OU PARA VENCER

"Numa sociedade dita consumista onde os valores monetários e materiais se sobrepõem aos morais, onde se encaixa a formação/educação dos nossos jovens?

Estaremos preparados para formar/educar os nossos filhos, alunos, desportistas para enfrentar as vicissitudes do dia a dia e do futuro? É importante e urgente que a via da formação/educação não seja apenas direccionada para o sucesso; que não se crie a ilusão de que só os vencedores são bons, e que os derrotados são pessoas fracas e inúteis.

É necessário passar a mensagem para que todos entendam que a vitória e o sucesso é o desempenho que cada um aplica nas suas funções e/ou no trabalho que realiza. A formação dos nossos jovens tem que necessariamente, ir ao encontro de alguns factores, tais como: o sentido de equipa, o espirito de sacrifício, a humildade, o respeito pelo próximo, o saber perder e o saber ganhar.

Existirão certamente outros requisitos, mas se forem cumpridos todos estes, estaremos a direccioná-los para uma vida mais segura, mais estável, de modo a que percebam que o futuro pode ter uma visão mais abrangente, não só a nível do desporto. Podemos não ter muitos desportistas a seguir uma carreira profissional ou muitos alunos a seguir a via universitária, mas, estaremos a formar um bom adepto, cidadão ou pessoa, e isto é o que deve ser levado em conta.

Infelizmente vivemos numa era em que se dá demasiada importância ao resultado. Senão vejamos: é sintomático os jovens serem questionados depois de um jogo e sempre com a mesma pergunta: Ganhaste ou perdeste? Como se isso fosse o mais importante. E porque não perguntar: divertiste-te? É que é bom não esquecer que estamos a falar de jovens, e não de profissionais que vivem em função dos resultados.
.

Continuando assim, estaremos a prepará-los bem? Penso que não. Continuamos a cair no erro de só pensar na vitória, no sucesso, esquecendo o quão importante é cada um dar o seu melhor, independentemente do resultado, sempre em prol da equipa, clube ou instituição que representa.

Ao longo da vida irão encontrar algumas dificuldades, e o nosso papel é prepará-los para as enfrentar, combater e ultrapassar, caso contrário, graves consequências poderão advir daí.

Será necessário, deste modo, formá-los na óptica da correcção dos seus erros, não atribuindo demasiado valor ao resultado, para que no dia de amanhã ele se sinta preparado para corrigir o que for necessário e com isso tornar-se uma pessoa mais confiante, melhor aluno, melhor atleta e principalmente melhor ser humano.

Deste modo, tanto as qualidades intrínsecas como as extrínsecas devem ser melhoradas pelos treinadores ou professores, mas também os pais desempenham um papel muito importante no crescimento destes jovens e são o factor vital no desenvolvimento destas crianças. Se por um lado, existem casos em que os jovens não têm apoio nenhum em casa, por outro lado, existem situações em que exigem em demasia deles; tanto um como o outro devem ser suprimidos.

Estarei a escamotear que a vitória não é importante? Nada disso. Sabe bem e é bom ganhar; não podemos é preparar um jovem só para isso. Devemos isso sim, responsabilizá-lo para que ele dê sempre o seu melhor, sabendo que nem sempre irá ganhar ou ser feliz nas suas opções.

Devemos então formar o jovem para a vida, criando-se uma cultura de formar para aprender. Por último, torna-se inevitável realçar que, se não se conseguir o sucesso como jogador ou aluno, que se consiga enquanto ser humano."


Pedro Alegria, 2004

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Prospectiva na análise dos futuros talentos – Caso Miguel Veloso

Um dos objectivos da formação é, sem dúvida, criar condições para que os desportistas evoluam, atingindo o seu máximo rendimento quando ingressam no escalão sénior. Para que isto aconteça é necessário fazer um diagnóstico das características do desportista quando chega à escola de formação. Depois do diagnóstico, surgem um conjunto de prescrições que promovem o desenvolvimento das variáveis definidas anteriormente. Pelo controlo da evolução dessas variáveis ao longo do período de formação, conseguimos prospectivar (com alguma margem de erro, claro!) que nível o jovem desportista pode alcançar no fim do seu percurso formativo.

Sendo assim, é competência fundamental do treinador de jovens desportistas, dominar a Prospectiva. Segundo F. Almada (1994) “A construção de cenários prospectivos permite-nos analisar os efeitos possíveis de situações, prováveis ou hipotéticas, de modo a tomarmos consciência das suas consequências, antes de estarmos envolvidos nelas, o que não só nos tira alguma capacidade crítica como também, e sobretudo, não nos deixa tempo para corrigir erros antes de estarmos a sofrer os seus malefícios.”
.
Referência bibliográfica: Almada e outros, “A prospectiva nas Actividades Desportivas”, Cadernos da Sistemática das Actividades Desportivas, nº4, Edições Faculdade de Motricidade Humana, 1994.



Caso Miguel Veloso



Miguel Veloso podia estar hoje a ter um papel fundamental ao serviço do Sport Lisboa e Benfica. Em 1999 Departamento de Formação do SLB sob a responsabilidade de Nené e Bastos Lopes tomou a decisão de dispensar o seu jovem desportista. Segundo o que a sua mãe referiu aos meios de comunicação social, consideraram M. Veloso demasiado “lento e gordo”. Quatro meses depois, já estava a dar continuidade à sua formação no Sporting Clube de Portugal, devido à descoberta realizada por Aurélio Pereira, considerado por muitos como o descobridor de talentos do SCP.
.

(fonte da imagem: Jornal 24horas de 3/05/2007)



Conclusões

Os erros ao nível da prospecção acontecem até aos melhores, mas todos devem ter em consciência que se pagam muito caro. Veja-se a falta que este desportista faz no plantel do SLB. Veja-se também o encaixe financeiro que o SCP pode realizar numa possível transferência do jogador em causa.

Portanto atenção, aqui temos mais uma prova que evidência que os resultados desportivos na formação nem sempre são determinantes para a evolução dos desportistas pois, podem colocar de parte jovens como este, o que condiciona toda a sua evolução. É assim que se perdem jovens talentos!

Prospectivem, mas com rigor, o conhecimento empírico é importante, mas por si só não é determinante!

Sá Pinho

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Colóquio dá início ao torneio transfronteiriço de futebol



Quinta-Feira, 17 de Maio de 2007


Arnaldo Cunha, coordenador da Federação, é o intervenienteA anteceder o Encontro Transfronteiriço de Futebol que decorre no fim-de-semana, o pavilhão do INATEL recebe um colóquio sobre os princípios da modalidade “Os princípios de jogo no futebol” é o tema da sessão teórico-prática que Arnaldo Cunha, coordenador técnico nacional da Federação Portuguesa de Futebol, dinamiza amanhã na Covilhã. Com organização da Associação de Futebol de Castelo Branco, o colóquio vai decorrer no Pavilhão da Delegação local do INATEL, a partir das 20h30 e ao longo de duas horas.“A organização desta sessão visa sobretudo ajudar todas as pessoas ligadas ao treino na operacionalização dos seus exercícios sobre um tema já obrigatório no futebol actual”, justificam os promotores da iniciativa que tem como destinatários treinadores, atletas, técnicos do desporto, dirigentes de clubes, professores de educação física e estudantes.A sessão insere-se no Encontro Tranfronteiriço de Futebol, que juntará conjuntos portugueses e espanhóis, financiado pelo programa INTERREG III – A. Desta forma, está prevista a participação de três jogadores de cada selecção participante na competição que está marcada para os dois campos do Complexo Desportivo da Covilhã. São elas as selecções distritais das associações de futebol da Guarda, Castelo Branco e Portalegre, do lado nacional, a que se juntam os conjuntos espanhóis de Mérida, Cáceres e Badajoz.O torneio é para jogadores com idade inferior a 15 anos. A maior parte dos jogos, num total de seis, disputa-se amanhã, entre as 10h00 e as 18h00. No domingo, decidem-se os vencedores da competição, com o primeiro jogo a ter lugar às 9h00 e o último às 11h40, hora em que se disputa a final.A selecção de Castelo Branco vai aproveitar a participação neste torneio com o objectivo de preparar os jogadores para o Torneio Lopes da Silva, que vai decorrer entre no final de Julho, no Estádio Nacional, em Lisboa.


domingo, 29 de abril de 2007

Simão revela como marca o penalti

Em primeiro lugar gostaria de pedir desculpas aos nossos visitantes pela paragem que o nosso blogue teve nos últimos tempos. Esperamos a compreensão de todos.

O tema que proponho neste post é a marcação do penalti. Uma situação de jogo que por vezes não é aproveitada, por falta de treino da capacidade de decisão dos jogadores. A verdade é que esta situação é treinada muitas vezes, mas treinar mais não significa treinar melhor (princípio do rendimento). O que verifico na maioria dos treinos de futebol que observo, é que o desportista é solicitado a repetir várias vezes o gesto, tendo o treinador uma preocupação principal, a incidir sobre a precisão do remate.

Simão Sabrosa, na minha opinião, um dos melhores futebolistas do mundo a marcar penaltis, revelou ao programa televisivo “Só Visto” da RTP (29-04-2007) alguns aspectos que considero determinantes na marcação do castigo máximo. As suas declarações contrariam a ideia que o penalti não passa de uma lotaria, em que o jogador escolhe um lado e espera que o guarda-redes não o adivinhe.

Simão revela que toma a sua decisão em função do movimento do guarda-redes. Tendo sempre um local pré definido, optando por esse local apenas quando o GR não se movimenta. Mas maioritariamente, tenta sempre analisar a direcção do movimento do guarda-redes e colocar a bola no lado contrário.

Declarações de um profissional conceituado que apresenta altos rendimentos na concretização da máxima penalidade. Declarações que credibilizam o nosso post publicado a 2 de Março de 2007: “Antecipação – Qualidade de um bom jogador”.


João Sá Pinho

domingo, 11 de março de 2007

Ser "Geração Benfica"

Numa altura em que a Formação no Futebol é um tema em voga, achei oportuno partilhar com os leitores deste Blog a minha experiência na Escola de Futebol do Sport Lisboa e Benfica, desvendando um pouco do trabalho que é produzido nesta instituição.


(Fonte1: http://www.slbenfica.pt/Info/Futebol/SectorFormacao/escolasdefutebol_metodologia.asp)

O objectivo da Escola de Futebol do Sport Lisboa e Benfica é formar cidadãos capazes de saber estar em sociedade, utilizando o Futebol como meio. Parece um pouco estranha esta minha afirmação, podendo o leitor questionar-se, Então onde são formados os Campeões? Os vencedores? Os jogadores que iram ser o futuro da equipa principal do Benfica? Estas são questões pertinentes que passaram na cabeça das pessoas, mas reflictam, na Escola de Futebol estão inscritos centenas de crianças/adolescentes, nem todos iram certamente chegar a ser jogadores profissionais de Futebol, então como Escola (de vida), o Benfica tem como missão passar uma série de valores: respeito, cooperação, saber trabalhar em grupo, saber estar em diferentes situações (dentro de campo, fora de campo), entre outros, através do Futebol.



(Fonte2: http://www.slbenfica.pt/Info/Futebol/SectorFormacao/escolasdefutebol_apresentacao.asp)

Em relação à Metodologia de Treino, compreendendo o jogo de Futebol como um contexto em que os desportistas estão constantemente a tomar decisões em função dos seus companheiros de equipa, dos adversários, e posição/deslocamento da bola, qualquer exercício de treino tem como objectivo treinar competências para que esses desportistas saibam tomar as decisões mais correctas em contexto de jogo. Nesta lógica exercícios de treino de habilidades como o passe (por exemplo: 2 desportistas frente a frente a treinar passe), não tem lógica de ser, porque num jogo de futebol, por exemplo, quando dois jogadores da mesma equipa se encontram sozinhos quando fazem um passe tem que ter sempre em conta a posição do seu adversário para evitar que a bola não seja interceptada. Então habilidades como o passe, ou o remate são meio para atingir um objectivo (por exemplo o golo), e não um fim si mesmo.
Todos os exercícios treino têm por base princípios de jogo, que levam ao treino de competências nos desportistas, para que estes tomem as melhores decisões possíveis em contexto de jogo.







(Fonte3: http://www.slbenfica.pt/Info/Futebol/SectorFormacao/escolasdefutebol_metodologia.asp)

Em termos organizacionais, a Escola de Futebol divide os alunos em diferentes turmas, juntando alunos da mesma idade. Podendo as turmas ter desportistas mais novos que a média das idades da turma, sendo miúdos que estão a um nível superior aos da sua idade. Como existe a preocupação dos alunos estarem em constante evolução, os estímulos existentes no treino têm que levar a uma constante superação, neste sentido tem que se adequar as turmas á necessidade dos alunos, procurando que já disse anteriormente a superação/evolução e evitar a desmotivação.

(Fonte 4: http://www.slbenfica.pt/Info/Futebol/SectorFormacao/escolasdefutebol_metodologia.asp)

Posso então dizer que a lógica do treino da Escola de Futebol do Sport Lisboa e Benfica, foi de encontro a forma como penso o Futebol, ou seja, mais do que treinar habilidades e depois aplicá-las no jogo, é necessário treinar a tomada de decisão (raciocínio), porque um bom jogador é aquele que sabe tomar as melhores decisões perante os problemas que o jogo lhe apresenta. Um bom profissional em qualquer trabalho é aquele que consegue sabe tomar a melhores decisões, e aplicá-las do seu contexto laboral. Mais do que formar bons executantes, é necessário formar bons Homens.


António Ferreira

sábado, 10 de março de 2007

Ronaldo e Drogba, jogadores multifunções

Para meu espanto, a minha opinião foi tida em conta pelo redactor principal da secção de desporto do jornal Público, resultando num artigo neste meio de comunicação social de dimensão nacional, o que me faz sentir um privilegiado!

Podemos constatar em post’s anteriores, publicados no nosso blogue “treino&ciência”, um diálogo entre mim (João Sá Pinho) e Bruno Prata, onde o tema principal incide sobre a estatura dos jogadores de futebol avançados. Este artigo vem no seguimento desse mesmo diálogos.

Antes de passar para a leitura do artigo, gostaria de referir que existe um lapso quando o autor refere que sou doutorado, pois estou no início do percurso, faltando-me muito para o completar. Portando onde está escrito doutorado, deverá ler-se doutorando.

"1. João Sá Pinho, um leitor habilitado na matéria (de facto, é mesmo doutorado em Metodologia de Treino Desportivo), enviou um e-mail a rebater a minha teoria de que alguns jogadores de baixa estatura, como Simão ou Miccoli, conseguem ser melhores entre os bons, designadamente porque sabem tirar partido do seu centro de gravidade baixo. Argumenta que há outros factores decisivos no desempenho de um futebolista. É verdade e alguma coisa terá falhado para que um especialista concluísse que só valorizámos a vertente antropométrica e, mesmo aí, em favor dos "baixinhos". Felizmente que não foi preciso esperar muito para ter a oportunidade de repor as coisas no devido lugar. Bastou, de facto, assistir aos jogos da Liga dos Campeões e observar as exibições de Cristiano Ronaldo (1,87 m de altura) e Drogba (1,88 m), provavelmente os dois jogadores mais determinantes e mágicos que o futebol nos tem oferecido esta temporada.Nem um nem outro marcaram, desta vez, quaisquer golos. Mas foi muito à custa do português que o Manchester bateu o Lille. Recordemos: Cristiano recebeu a bola junto à linha, acariciou-a primeiro com a sola das chuteiras, transportou-a a seguir com toques ligeiros, depois arrancou como uma flecha enquanto deixava para trás dois adversários surpreendidos com o seu correr de pernas altas e passinhos estranhamente curtos e, finalmente, utilizou a cabeça de Larsson para tabelar a bola para o fundo da baliza - é uma imagem exagerada, claro, mas não foi por acaso que o sueco e os restantes colegas correram de imediato para um Cristiano sentado nos calcanhares enquanto mirava as bancadas com aquele olhar apoteótico que fez lembrar os tempos em que Cantona levantava as golas da mesma camisola sete.Drogba foi o mais castigado no Chelsea-FC Porto (sofreu cinco faltas). Normal. Mas foi também o mais faltoso (quatro), o que já é menos normal e ajuda a explicar por que muitos o consideram o paradigma do atacante total e o melhor número 9 da actualidade. Quando, há cerca de um ano, se dizia que José Mourinho queria contratar Eto"o e que, para isso, até poderia convencer o Barcelona oferecendo em troca Drogba, desconfiámos que o negócio jamais se faria. Porque Drogba, tal como Terry e Lampard, tem o ADN e a cultura vencedora que permitem a Mourinho fazer do Chelsea uma máquina por vezes monótona, mas quase sempre trituradora. É isso que o costa-marfinense mostra quando ganha todos os lances aéreos na área adversária (como no golo de Ballack frente ao FC Porto) ou quando, logo a seguir, está na sua defesa a anular um canto. Um carácter que começou a forjar quando jogava no Le Mans (II Divisão francesa), onde nem era titular, e teve de ultrapassar as fracturas no pé e no perónio. Num ápice, os seus golos chamaram a atenção do Marselha, que pagou por ele seis milhões de euros ao Guingamp, bem menos que os 37,5 milhões que Mourinho quis que Abramovich desembolsasse para o ter em Stamford Bridge. É muito? Talvez, mas pouco se tivermos em conta os golos que marca e dá a marcar e menos ainda se o compararmos com Schevchenko, que custou mais (44,5 milhões de euros) e que ainda é tratado pelos companheiros por 007, por ter a fama de ser o espião do patrão russo no balneário. É, por isso, inverosímil que Mourinho alguma vez trocasse Drogba por Eto"o, um avançado igualmente extraordinário, mas dono de uma cabeça egoísta e algo destrambelhada, o oposto do que Mourinho valoriza. Mas perguntem a Mourinho se não gostaria de ter Cristiano Ronaldo... Venha ele!, diria imediatamente. Porque há sempre lugar para um jogador-multifunções, capaz do belo e do eficaz e que, ainda por cima, junta o querer e a ambição que fazem parte da cartilha do técnico português. O problema de Mourinho (e de tantos outros) é que Ferguson também sabe isso.Tivessem o Barcelona e o Arsenal (as duas equipas na actualidade que mais mimam a bola) jogadores desta estirpe e provavelmente não iriam ver os quartos-de-final do sofá. Mas o Barça de Rijkaard, como alguém escreveu no El País, é uma equipa "guapa" e mais dada à cosmética do que à cicuta. Por isso, quando Ronaldinho & C.ª não interpretam devidamente a partitura, tornam-se apenas num conjunto de celebridades cheias de etiqueta e ao alcance de um Liverpool pragmático. Porque uma equipa é também um estado de alma.


2. Ao fim de 15 anos, Figo despediu-se das provas europeias de clubes. Fê-lo de forma algo inglória, na eliminação do Inter de Milão em Valência, num jogo ainda por cima marcado pela vergonhosa sessão de pancadaria no relvado e nos corredores. Entre o dia 18 de Setembro de 1991, quando se estreou na Europa com a camisola do Sporting frente ao Dínamo de Bucareste, e a derradeira participação, Figo somou 136 jogos europeus (só Maldini tem mais) e conquistou uma Liga dos Campeões, uma Taça Intercontinental, uma Taça das Taças e uma Supertaça Europeia. Isto para além de galardões individuais e títulos em Espanha e Itália, onde está prestes a festejar mais um. Aquele que foi, pelo menos, o melhor jogador português desde Eusébio revela-se igual a si próprio na forma cerebral e fria como, aos poucos, se vai desligando do "circo futebolístico". Não se lhe notou pinga de emoção ou de nostalgia, mesmo quando anunciou que a alta competição já foi chão que deu uvas e que é tempo de ir à procura dos petrodólares nos árabes do Al-Ittihad. Tanta frieza atrapalha e até incomoda quem se habituou a admirá-lo e a aplaudi-lo. Mas Figo sempre foi assim. Um pragmático, acima de tudo.


3. Uma equipa de jornalistas da televisão britânica BBC esteve em Portugal a fazer uma reportagem sobre o trabalho que o Sporting desenvolve na formação. Efeitos "colaterais", está bom de ver, da dimensão internacional que ganharam Figo, Ronaldo, Quaresma, Simão e Hugo Viana. Para além de considerar que os "leões" estão ao nível da referência que sempre foi o Ajax, e que até lhe ganham nas infra-estruturas que a Academia de Alcochete agora oferece, a reportagem defende que os ingleses têm muito a aprender com o Sporting. O segredo está em não preferir os jovens avantajados, mas que não sabem controlar a bola, aos que só têm (ainda) palmo e meio, mas já mostram perícia e velocidade. Lá voltamos nós à vaca fria, não é, caro leitor João Sá Pinho?...

Jornalista (bprata@publico.pt)


P.S. - O nome desta rubrica semanal resulta de um neologismo surgido no início do século XX que falhou a tentativa de substituir a palavra inglesa football." (Prata, B., Público, 09.03.2007)
.
.
Nota: Concordo integralmente quando o autor refere que preferir jogadores avantajados por si só de nada vale. Considero um jogador como uma pessoa que deve ter um conjunto de características e um conjunto de competências. Portanto deve ser visto como um todo. Por vezes até me apetece exclamar: “Pequeno ou grande tanto me faz!”, mas na verdade a altura é um factor a ter em conta, como muitos outros que fazem parto do todo.

Questão: Muitos clubes de formação, colocam as medidas antropométricas como uma variável demasiado importante na selecção dos seus jovens desportistas. Sem dúvida que por vezes fazem a diferença nas competições onde participam, e têm grande influência na obtenção de títulos desportivos. Mas quando se pensa: “é grande, com ele vamos ser campeões na formação!”, estamos, sem dúvida, a esquecermo-nos que o principal objectivo da formação é “construir” um percurso. Esta etapa da formação deve acabar quando o jovem atinge o nível sénior (não esquecendo que enquanto o Homem é um ser vivo está constantemente em formação), e aqui sim, num nível sénior, tem de se apresentar com as suas capacidades e competências bem desenvolvidas, para que possa ganhar campeonatos e ter rendimento!
Finalmente a questão: Será que quando optamos pelos “grandinhos” unicamente por serem “grandinhos”, não estamos a perder “baixinhos”, com mais potencial para virem a ser jogadores competentes?

Afirmação 1: Penso que um jogador de “TOP”, além de ter que saber tirar partido do seu centro de gravidade, deverá também saber tirar partido do centro de gravidade do adversário, pois da análise deste (CG) pode obter informações determinantes para uma tomada de decisão bem sucedida.
Aqui está uma problemática ainda mais interessante!
.
João Sá Pinho