sábado, 15 de outubro de 2011

Motivação… todos puxam para o mesmo lado!

Na actividade desportiva, inúmeros factores contribuem para um aumento do rendimento. Ao contrário daquilo que muito desvalorizam, a actividade desportiva é praticada por Seres Humanos, não por, máquinas que batem recordes, peças de um puzzle que se dispõem em 4x3x3, máquinas que arremessam objectos, nem tão pouco, objectos em trajectória aérea que voam mais longe ou mais alto. Muitas vezes, porque é mais fácil e mais cómodo, evita-se pensar que desportistas são seres humanos que analisam, interpretam, sentem, ambicionam, influenciam e são influenciados… que actuam de forma a responder racionalmente às exigências do contexto, onde desempenham a sua actividade desportiva.

Dado que estamos a falar em Seres Humanos, os factores de carácter psicológico deverão ser tidos em conta, em todos os momentos da intervenção do profissional do desporto, desde a conversa informal tida com o desportista, passando pela situação de treino, até ao feedback dado na mais importante competição. Toda a intervenção do profissional, para além das questões técnicas, deverão ter o objectivo motivar o desportista, para que alcance o seu máximo rendimento desportivo.

Cada desportista é motivado por um factor ou conjunto de factores diferentes, podendo ser influenciado para o êxito por factores intrínsecos como bater um recordes, marcar um golo, ganhar um jogo, ganhar um campeonato, etc., ou por factores extrínsecos como ganhar dinheiro, conquistar visibilidade através dos média, vencer um prémio, etc. Neste sentido, considero preponderante que o treinador conheça cada um dos seus desportistas, procurando compreender quais são os factores que os condicionam para alcançar o êxito desportivo. Na minha opinião poderemos ter dois tipos de intervenção: (1) ou estimulamos os desportistas levando-os a acreditar que a sua fonte de motivação possa ser alcançada ou, (2) caso percebamos que não é uma fonte de estimulação atingível, teremos que audazmente realizar um plano de mudança, pois se os desportistas sentirem que não conseguem atingir o que anteriormente os estimulava para a prática da modalidade, irão sentir uma drástica redução da sua motivação, podendo mesmo terminar no abandono da modalidade. É fundamental que as fontes de motivação sejam mais intrínsecas do que extrínsecas. Como refere Weimberg, Gould, (2001) “… quando um indivíduo percebe que está intrinsecamente motivado, sente-se mais feliz para praticar um devido desporto, já quando a pessoa percebe que a causa da sua motivação é extrínseca vai-se desmotivando da prática do mesmo”.

Para que o leitor perceba que a motivação do desportista vai muito para além do contacto verbal, deixo-lhe dois exemplos de estratégias que José Mourinho adoptou para outrora motivar os seus jogadores.

- “Eu sabia que o Camacho – treinador benfiquista –, sempre que estava a perder, trocava o Zahovic pelo Sokota. Ora, quando iniciei os treinos fi-lo exactamente no sentido de preparar a minha equipa contra as investidas atacantes do Sokota” (Mourinho in Lourenço 2004). Através do exercício de treino, José Mourinho passa a mensagem de que no jogo seguinte, irá estar em vantagem no marcador, passando em simultâneo uma mensagem de confiança para o seu grupo de trabalho.

- “Quando Vilarinho tornou público o seu sonho (ganhar 3-0 ao FCP) de imediato pensei: «aí está a provocação que eu preciso para agitar o orgulho dos meus jogadores. De imediato mandei fazer uma fotocópia da entrevista do presidente do Benfica e coloquei-a na parede do balneário das Antas durante toda a semana, para que ninguém se esquecesse do “sonho” de Vilarinho. Aos jornais disse apenas que na nossa casa ninguém nos ganha por 3-0. E fomos para o jogo de alguma forma espicaçados” (Lourenço 2004)

Como pode ver, todas as estratégias poderão ser utilizadas, desde que o objectivo final seja mobilizar forças para que o desportista ou a equipa atinjam determinado objectivo. Na minha opinião a criatividade e capacidade de liderança do treinador, são fundamentais neste processo motivacional.

"Motivação é a arte de fazer as pessoas fazerem o que você quer que elas façam porque elas o querem fazer." (Dwight D. Eisenhower)


Artigo Publicado no Jornal Tribuna Desportiva de 11.10.2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Hidratar no Futebol... um Pequeno Grande Pormenor

A água assume uma importância fundamental no nosso organismo, o nosso corpo é maioritariamente constituído por água e para o seu saudável funcionamento, a água assume um papel essencial.

Devido à necessidade de manter a temperatura corporal, o corpo liberta água através do suor, provocando a sua evaporação na superfície da pele. Estudos relacionados com a modalidade futebol, dizem-nos que jogadores em estados de desidratação, podem perder cerca de 30% da sua capacidade de trabalho. Ao contrário do que se possa pensar, esta diminuição de performance, não está só relacionada com a capacidade de correr, saltar, rematar etc., está também relacionada com a tão solicitada capacidade cognitiva. Para que tenha uma ideia mais concreta, a perda de líquidos através do suor, num jogo de futebol, pode variar entre 1 a 3,5 litros, dependendo da intensidade e duração do esforço, condições ambientais, etc. A única forma de repor esta perca de líquidos, é através da ingestão de líquidos! Mas QUANDO deve ser ingerido? A resposta está no antes, durante e depois. E COMO? Certamente se encher o seu estômago de uma vez só e praticar actividade desportiva, irá provocar algum desconforto gastrointestinal, podendo despoletar mesmo sensações de desconforto abdominal. Neste sentido o líquido deve ser ingerido de forma faseada.

Poderá iniciar a ingestão de pequenas quantidades de água 2h horas ANTES da actividade, diminuindo esta ingestão na meia hora que antecede a competição, evitando iniciá-la de estômago cheio. Esta ingestão de água antes da competição tem o importantíssimo papel de prevenir antecipadamente as perdas. Note-se que equipas mais organizadas, disponibilizam água aos seus jogadores em todos os locais onde eles passam, nomeadamente nos balneários, nas zonas de aquecimento, no banco de suplentes, etc.

DURANTE o exercício a reposição de líquidos é extremamente importante. No caso do futebol, dado o seu regulamento que não contempla pausas de volume temporal significativo, a não ser ao intervalo, as equipas deverão criar estratégias para possibilitar que os seus jogadores se hidratem nas pequenas paragens do jogo, por exemplo disponibilizar água junto ao banco de suplentes e perto da própria baliza.

Se pratica actividade desportiva, com certeza que mesmo DESPOIS do final da mesma, continua a sentir calor e o seu corpo continua a suar! É natural! O organismo leva bastante tempo a chegar ao estado de repouso, depois de um esforço. Quanto mais intenso e prolongado for esse esforço, mais tempo demora a chegar ao inicial estado de repouso. Neste sentido é importante que o desportista continue a ingerir líquidos, no sentido de ajudar o organismo a recuperar o mais rapidamente possível os níveis iniciais.

Como controlar os líquidos ingeridos pelos jogadores:

Com o objectivo do departamento responsável controlar o volume de líquido ingerido por cada desportista, sempre que possível, o jogador deverá ter ao seu dispor a sua própria garrafa com água, ou outra bebida.
 

Alguns sinais que evidenciam a desidratação:

- Aumento da frequência cardíaca;

- Aumento da temperatura corporal;

- Aumento da sensação de fadiga, podendo provocar o aparecimento de cãibras e tonturas;

- Diminuição do rendimento;

- Aumento concentração da urina (cor escura);

- Diminuição da micção urinária;

- Secura nas mucosas da boca e do nariz.


Remate 1: A sede não é um correcto indicador de necessidade de ingerir água, quando nós sentimos sede é porque o nosso organismo há já algum tempo necessitava dela.

Remate 2: Beber água a mais também é prejudicial, além do aumento do peso desnecessário, provoca que a concentração de sódio na corrente sanguínea seja baixa, despoletando dores de cabeça, fadiga vómitos, etc. Assim, deve saber a quantidade média de água que perde durante o esforço, para que a possa repor com exactidão. Existem formulas relativamente simples para calcular a sua taxa de sudação.

Remate 3: Relativamente à ingestão de bebidas alcoólicas e cafeína depois do esforço é, na minha opinião, limitadora da reposição de líquidos no organismo, devido ao seu poder diurético.

“Compreender as entrelinhas do discurso de alguém é o caminho para a conhecer!
Artigo publicado no Jornal Tribuna Desportiva de 4.10.2011

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Exmo. Sr. Pedroto - Revolucionário do processo de treino!


«O verdadeiro calcanhar de Aquiles do nosso futebol reside no simples facto de quase todos pensarmos que, quando saímos dos estádios, já não somos profissionais de futebol»

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Coesão do Grupo e os Suplentes – Um factor determinante para o SUCESSO

Devido à evolução da ciência e da abordagem ao processo de treino, o treinador deverá dominar diferentes áreas do conhecimento, áreas essas, determinantes para que a sua equipa alcance o sucesso e consequentemente o seu trabalho seja valorizado por todos. As relações interpessoais são um desses aspectos que considero fundamentais. Dentro das relações interpessoais, teremos várias áreas com extrema relevância. Uma das que considero importantíssimas é a capacidade de perceber o fenómeno da coesão do grupo e como potenciá-lo.

Segundo Neto 2007, "A competência, capacidade e experiência técnica e científica do treinador, conjuntamente com as suas competências de relação interpessoal constituem a mistura mágica para o espírito ou coesão de uma equipa".

De uma forma simples, a coesão do grupo é a capacidade dos elementos de uma equipa, se unirem no sentido de atingirem um objectivo.

Neste processo dinâmico, um dos aspectos determinantes e difícil de gerir, é a forma como o treinador intervém junto dos jogadores que menos jogam. Quando estes elementos se tratam de jogadores que procuram o sucesso da equipa, terão obrigatoriamente de perceber que fazem parte do grupo e devem fazer tudo o que está ao seu alcance, para contribuírem para o sucesso do mesmo. Mesmo não jogando, o sucesso da equipa é o seu próprio sucesso. Esta é a melhor forma de estar identificado com a missão da equipa e ao mesmo tempo estar preparado para responder positivamente, quando uma oportunidade surge, contribuindo assim de uma forma activa, para alcançar os objectivos a que todo o grupo se propõe.

O que acontece frequentemente em equipas de futebol ou outras, onde existe uma falta de ligação e coesão entre elementos, ou em alguns casos diria mesmo falta de profissionalismo, é que os jogadores que não têm tantas oportunidades de competir, tentam encontrar defeitos na prestação dos seus colegas com mais oportunidade, transmitindo até a sua opinião para os colegas que estão na mesma situação. Este tipo de comportamentos prejudica gravemente a coesão do grupo e consequentemente o rendimento da equipa. Alguns desses prejuízos são a desaproximação daqueles que mais jogam; a criação de subgrupos com diferentes objectivos; a falta de concentração e incapacidade de focagem na tarefa quando têm a oportunidade de mostrar o seu valor. De uma forma geral o grupo entra numa bola de neve em que uns estão cada vez mais distantes dos outros, e os jogadores que despoletam esta situação, através de comportamentos e atitudes impróprias para a coesão da equipa, estão cada vez mais distantes das tarefas que devem realizar durante os jogos e treinos, pois deixam de estar centrados na sua tarefa dentro da equipa e passam a estar focados na prestação dos seus colegas.

Para que esta coesão seja uma realidade, evitando situações como a anteriormente referida, é importante que a capacidade de liderança do treinador, consiga envolver todos os jogadores na missão da equipa, fazendo com que todos os elementos do plantel se sintam úteis e parte integrante no processo, mesmo não jogando com tanta frequência como os outros.

Neste sentido, o treinador deve ter a capacidade de recolher informação acerca das características relacionais de cada jogador e em simultâneo compreender como é que o jogador interfere no grupo e vice-versa, para que consiga intervir, proporcionando que o TODO seja superior à soma das PARTES.

Chamo a atenção para que um plantel com os melhores jogadores, nem sempre é a melhor equipa. Se analisarmos a nível europeu, claramente existem equipas com planteis caríssimos, com jogadores de alta visibilidade, mas que raramente conseguem alcançar o sucesso. Isto pode dever-se, à falta de identidade com os objectivos colectivos da equipa. Quero dizer com isto, que o processo inicial de construção do plantel, deve ter em consideração as características relacionais de cada jogador a contratar. Para mim, este é o primeiro passo para que a equipa esteja mais próxima da coesão.

Alerto também, para a relação bidireccional que existe entre o rendimento e a coesão do grupo. Considero que a coesão entre elementos aumenta o rendimento da equipa e que simultaneamente, o rendimento desportivo proporciona um aumento da coesão do grupo. Na gíria do futebol ouve-se muitas vezes dizer, quando se ganha com regularidade e os objectivos estão cada vez mais perto de serem alcançados, tudo está bem!

Um jogador que olhe primeiro para o seu umbigo e só depois levanta a cabeça para olhar superficialmente para a sua equipa, será apenas um jogador do plantel, estando muito longe de ser um jogador da EQUIPA.

Artigo Publicado no Jornal Tribuna Desportiva de 20.09.2011

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O Capitão de Equipa – O Peso da Braçadeira

O tema que hoje vos apresento prende-se com o papel do capitão de equipa. Pode parecer irrelevante, quem é o capitão, ou como desempenha esta função. Não o entendo assim! Considero-o como um pormenor fulcral para o sucesso de uma equipa.

Este jogador deverá ter a capacidade de conhecer bem os seus colegas, de forma a conseguir mobiliza-los, para que canalizem para ele toda a informação sobre o dia-a-dia de trabalho no clube. Só estando atento e possuindo esta informação, conseguirá intervir junto do grupo, promovendo um aumento da coesão do mesmo, no sentido de todos os elementos realizarem um trabalho, rumo aos objectivos definidos para a equipa. Em todos os momentos este jogador será o máximo representante dos jogadores, a “voz” da equipa. Em situações de maior envolvimento emocional, o capitão deverá ser capaz de se auto-controlar, realizando uma análise correcta da situação e intervir junto dos seus colegas, condicionando-os no sentido de defender a integridade de todos os elementos da equipa, a missão do clube e tornando assim, a equipa cada vez mais próxima dos objectivos a atingir.

Para além das situações anteriormente referidas, é fundamental que exista uma cumplicidade entre este jogador e o treinador. Só através de uma relação cúmplice, o capitão consegue perceber correctamente as ideias da equipa técnica e transmiti-las aos seus colegas, mesmo durante o próprio jogo. Para que esta estreita ponte entre treinador e capitão de equipa seja possível, é também necessário o reconhecimento de competências por parte de todo grupo, em relação ao capitão. Terá de ser evidente a sua capacidade de liderança e a identificação desta liderança, por parte de todos os elementos do plantel. Para além de levar para dentro de campo a mensagem do treinador, é necessário que apresente à equipa técnica toda a informação que considere pertinente, acerca do sentimento do grupo em geral e de cada jogador, de forma a que os treinadores possam preparar estratégias mais adequadas aos objectivos a alcançar. Os factores anteriormente enunciados evidenciam claramente que o papel do capitão é mais de responsabilidade do que de privilégio.

Ao nível da comunicação, o capitão deverá ter capacidade de captar a atenção de todos os elementos de equipa, para que a informação seja passada e compreendida por todos os intervenientes. Quando me refiro a intervenientes considero jogadores da equipa, treinadores, direcção do clube, comunicação social, árbitros e mesmo adeptos, transformando-se assim numa referência dentro de todo o envolvimento social e cultural do clube.

Chamo especial atenção que dentro do plantel, poderemos ter vários tipos de liderança, o capitão formalmente eleito ou nomeado pelo treinador, e o líder informal, este, mesmo não sendo capitão poderá ter uma forte influência no grupo. Nestes casos a equipa técnica, deverá ser fortemente perspicaz para identificar líderes informais e mobilizá-los a influenciarem o grupo no sentido de percorrerem todos o mesmo caminho, tornando-os em mais um elemento agregador. Em alguns casos poderá haver rivalidade entre estes dois líderes. O que sucede quando isto não é diagnosticado atempadamente, precedida de uma correcta intervenção é a divisão do grupo. Estes acontecimentos provocam movimentos dentro do plantel, havendo jogadores a posicionarem-se comportamentalmente perto de um dos líderes e outro grupo de jogadores perto do outro líder. Quando isto acontece torna-se devastador para a equipa.

Penso que ficou evidente que o Capitão desempenha uma função tão importante, que muito deve pesar na sua escolha e na forma como é gerida a sua função ao longo da época, mas de uma forma simples, terá de ser uma fonte de inspiração para todos os seus colegas, treinadores, dirigentes, sócios, etc.

Compreender as entrelinhas do discurso de alguém, é o caminho para a compreender!

Artigo Publicado no Jornal Tribuna Desportiva de 13.09.2011