sábado, 15 de junho de 2013

Alemanha - excelência na produção de talentos


O artigo que vos trago esta semana, relaciona-se com um outro artigo publicado no jornal The Guardian, que não resisti em fazer referência ao seu conteúdo.

Desportivamente a Alemanha atingiu um nível muito elevado. Depois de passar por um embaraçoso Euro 2000, neste momento consegue colocar duas equipas na final da Liga dos Campeões. Este fato leva-nos a pensar que alterações existiram para proporcionar tal proeza? Segundo refere o artigo do jornal The Guardian, passa por um sistema bem elaborado, que valoriza treinadores e nutre o talento desportivo.

O futebol alemão está a crescer, colhendo os frutos da estratégia que delineou. Depois de realizar uma revisão do futebol juvenil, a Federação de Futebol Alemã, a Bundesliga e os clubes decidiram que a prioridade seria o desenvolvimento de mais jogadores nacionais. Isto levou à criação de 400 centros de produção de talento, tendo sido construídos mais de 1000 campos de futebol.

Os frutos estão aí para todos verem. Joachim Löw, treinador da Alemanha, é abençoado com uma geração de talentosos jovens jogadores - Andre Schürrle (22), Thomas
Müller (23), Mats Hummels (24 ), Mesut Ozil (24), Marco Reus (23), Toni Kroos (23) ... e não só, a lista é longa.

Mais se acrescenta que 26 jogadores que estiveram na final da Liga dos Campeões (Bayern de Munique e Borussia Dortmund), poderão jogar na seleção Alemã. Mais de metade desses jogadores foram alvo do programa de desenvolvimento de talentos Federação, que foi introduzido em 2003. Este projeto, não se baseou apenas na criação de infraestruturas. Abrangeu 366 regiões da Alemanha, numa iniciativa impressionante, que atingiu crianças dos 8 aos 14, servidos por 1.000 treinadores da federação, que trabalham em cooperação com os clubes. Uma importante medida foi a formação destes treinadores. Para integrar o projeto teriam que possuir, no mínimo o nível UEFA b. Pergunto eu, porque é que os treinadores nacionais e os técnicos distritais, não têm uma forte interação com os clubes, nos sentido de proporcionar ações de formação aos treinadores e sessões de treino com os jovens jogadores, em vez de estarem apenas preocupados em andar a ver jogos, para encontrar jogadores que possam integrar as seleções distritais e/ou nacionais.

O espírito com que os jovens jogadores são estimulados para encarar os jogos, é um fator a ter em conta. Segundo Dutt, diretor desportivo da Associação de Futebol Alemã refere que "é importante ter a preocupação de ganhar alguns jogos na época, mas não é o aspeto principal. O principal é fazer um bom treino
.” Apesar de desvalorizar o resultado desportivo, considera que a cultura alemã, faz com que os jovens necessitem do estímulo vitória, para que tenham um objetivo a alcançar.

Relativamente à formação dos treinadores refere: "Antes, na Alemanha, quem jogava na Bundesliga por alguns anos, era colocado a treinar o futebol juvenil. Os responsáveis pelo futebol alemão concluíram que estes não reuniam a formação suficiente para serem treinadores.” A medida foi misturar estes técnicos com outros que tinham estudado desporto nas universidades.

Dutt refere ainda a grande relação que a federação e as associações têm com os clubes no sentido de verem o que é melhor para os jogadores. Dá o exemplo de Jonathan Tah, jogador de Hamburgo, considerado um dos maiores talentos defensivos na Alemanha, que também é capitão da seleção Sub-17. Por vezes, este jogador não joga no seu clube de origem, para estar disponível para desenvolver as atividades do programa de desenvolvimento de talentos da Federação Alemã.

Relativamente à inclusão de jogadores estrangeiros, o diretor desportivo da Federação Alemã questiona: “porque é que as academias da Bundesliga trazem raramente jogadores do exterior?” A resposta é simples: "Se você deseja obter um jogador Africano, ou um jogador do Brasil, você precisa de dinheiro, assim fica mais barato integrar jogadores da Alemanha.” Conclui ainda, “e temos jogadores suficientes aqui."

Em jeito de conclusão penso que se os clubes de futebol portugueses, fossem mais apoiados pelas instituições que tutelam o futebol de formação, através de um programa operacionalizável e sustentável, proporcionando um estímulo à formação do jovem jogador português, a nossa seleção teria jogadores com ainda mais qualidade, culminando num obvio sucesso desportivo! Claro que há situações em que não nos podemos comparar com a Alemanha, pois Portugal não tem a liquidez financeira para investir em infraestruturas, nem a mesma base de recrutamento. Mas os bons projetos são adaptáveis e nada estanques.

REMATE DA SEMANA: "Todos podem ver as táticas de minhas conquistas, mas ninguém consegue discernir a estratégia que gerou as vitórias".Sun Tzu

Artigo Publicado no Jornal Tribuna Desportiva de 28.05.2013

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Investimento em Eventos Desportivos… É mesmo rentável?


Pelo país fora decide-se a organização de eventos desportivos. Uma pergunta que frequentemente faço a mim mesmo, é se quem decide a realização desses eventos, utiliza algum instrumento de medição para aferir o retorno económico desse evento, ou se apenas decide com base na sensibilidade que tem e opiniões generalizadas sobre o mesmo.

É que alguns eventos apresentam um investimento avultado, como por exemplo foi o caso do Euro 2004, considerado uma boa oportunidade para dar visibilidade internacional ao nosso país. Evidentemente que não tenho dados para fazer uma análise sistemática da rentabilidade da utilização dos dinheiros públicos canalizados para a realização deste tipo de organizações, mas também gostaria de fazer a questão… Será que alguém tem?

Se alguém os tem será fundamental passa-los para a comunidade em geral, através de uma linguagem percetível a todos, criando assim um sentimento de justiça, através da compreensão da rentabilidade da utilização dos dinheiros dos cidadãos neste tipo de eventos. Quando a linguagem não é clara, ou simplesmente não existe informação, todos têm o direito de especular com as expressões que habitualmente ouvimos, p. ex. “ deu prejuízo!”, “alguém ganhou dinheiro com o evento!”, “serviu para projetar a imagem deste ou daquele!”, etc.

Seja o evento de pequena ou grande dimensão, quer se invista 1 euro ou 1 milhão de euros, se esse dinheiro é público, todos devem saber o que se ganhou com a aplicação desse dinheiro e não apenas saber quanto foi gasto.

Em Inglaterra existe uma entidade não-governamental intitulada UKSport responsável por medir o impacto económico dos eventos desportivos. O UKSport tem como estratégia global, quanto aos eventos desportivos, apoiar aqueles que tenham relevância estratégica e que produzam, ao mesmo tempo, um conjunto de benefícios duradouros de caráter desportivo, económico e “social-cultural”. Esta entidade considera que o “… impacto económico de um evento desportivo é a mudança económica líquida na economia local resultante do acolhimento do evento. O efeito económico líquido pode ser expresso como a despesa adicional local, o emprego adicional local, ou o rendimento adicional local gerados pelos visitantes do evento provenientes de fora da economia local. O impacto económico total de cada evento é composto por três componentes: o impacto direto, o impacto indireto e o impacto induzido”. Importante salientar que com base nos estudos realizados em diferentes eventos entre 1997 e 2003, a UKSport criou um “Modelo de Previsão Económica” que usa para prever o impacto económico dos eventos, tendo em conta a especificidade de cada um, evitando a generalização.

A UKSport é crítica quanto a alguns estudos de impacto económico referindo no documento Game Plan 2002 Não apenas os resultados de muitos estudos de impactos económicos são mal interpretados…para suportarem…crenças de políticas, mas os resultados são muitas vezes mal calculados pelos economistas, algumas vezes deliberadamente para agradarem aos patrocinadores do projeto de investigação, outras vezes sem intenção, sendo que o número de insuficiências na estimativa dos benefícios líquidos de um investimento público são numerosas”. Daí, esta organização recomende a ação especializada das candidaturas dos eventos desportivos, garantindo a boa aplicação de recursos públicos.

Tendo em conta o exposto, cabe-me terminar este artigo com algumas questões:

- E em Portugal não deveria existir uma entidade que medisse e estudasse eficazmente o impacto dos eventos desportivos?

- Tendo a sensibilidade para perceber que os eventos desportivos poderão proporcionar retorno económico, essa entidade não deveria ser responsável por propor eventos rentáveis para aplicar os dinheiros públicos?

- Essa entidade não deveria dar suporte ao poder local para estudar a viabilidade de eventos de menor dimensão? Alerto que eventos organizados localmente, muitas vezes apresentam uma maior “taxa de esforço” que eventos organizados de dimensão nacional ou internacional.

REMATE DA SEMANA: "A economia é uma virtude distributiva e consiste não em poupar mas em escolher.” Edmund Burke

 

Artigo publicado no Jornal Tribuna Desportiva de 7.05.2013